CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE POR ADRIANA CALCANHOTTO
TEXTO: O ELEFANTE
(CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)
Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.
Eis o meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num enfastiado
que já não crê nos bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais.
Vai o meu elefante
pela rua povoada
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que o ameaça
deixá-lo ir sozinho.
É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
a passo desastrado
mas faminto e tocante.
Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.
E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto da pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo o seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.
LIVRO: A ROSA DO POVO
AUTOR: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
EDITORA:COMPANHIA DAS LETRAS
SAIBA MAIS SOBRE O DIA D AQUI:
HOMENAGEM AO POETA MINEIRO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
QUE ESTARIA, HOJE, 31 DE OUTUBRO DE 2012, COMPLETANDO 110 ANOS.
6 comentários:
gostei desse texto e gostei do livro também..muito obrigado
fiz muito sucesso com alho por alho e dente por dente na escola
beijos
Não sei de outro brasileiro a quem eu desse um dia. Drummond mais que merece.
Regina
www.livroerrante.blogspot.com
Adorei, Cristina! Obrigada pelo vídeo!
bjs
João,
Estava com saudades de
você!
Este texto de Carlos
Drummond de Andrade
é muito interessante.
Fez sucesso na escola!
Que bom!
beijo
Cristina
REGINA,
"DIA D" CARLOS DRUMMOND
DE ANDRADE.
O DIA D FOI CRIADO PARA
HOMENAGEÁ-LO SEMPRE. O
QUE É PRA LÁ DE MERECIDO.
VAMOS ESPALHAR ESTA IDEIA?
VOU TIRAR UM TEMPINHO PARA
LHE FAZER UMA VISITA.ESTOU
COM SAUDADES.
ESTOU TRABALHANDO MUITO E
JÁ MERECENDO FÉRIAS, MAS
ELAS PARECEM NÃO CHEGAR
JAMAIS.
BEIJO,
CRISTINA
Oi! MIL,
Eu fiquei muito feliz quando
encontrei este vídeo. Eu
também gostei muito!!!!
beijo
Cristina
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